Hoje não tem texto
Hoje não tem texto porque o meu computador foi seqüestrado por uma gangue de anões amigos do alheio. Como eu sei que era uma gangue de anões? Bem, eles deixaram um bilhete de resgate pedindo cinqüenta barras de nutri banana e assinaram como "GAAA - Gangue dos Anões Amigos do Alheio". Ainda estou tentando angariar os nutris. E a polícia não aceita minha queixa.
Mentira.
Hoje não tem texto porque eu estava caminhando pelas ruas do bairro quando vi um forte foco de luz, em plena manhã, e no minuto seguinte estava cercada de homenzinhos cinzas com grandes olhos, que me colocaram em uma maca e implantaram alguma coisa na minha nuca. Agora, sempre que tento escrever, levo choques de 152 volts. GWARGH! Olhaí, de novo...
Mentira.
Hoje não tem texto porque eu tive um problema de saúde meio desagradável. As pontas dos meus dedos caíram porque uma mulher desavisada derramou fanta uva neles, enquanto eu tomava café com broinha de milho no balcão da padaria e dizia a ela que fanta uva mata. Acho que foi de propósito.
Mentira.
Hoje não tem texto porque eu tive coisas muito importantes a fazer, como depilar minha perna com pinça e tentar mover objetos com a força do pensamento. Talvez eu devesse ter começado a tentar com um travesseiro, em vez da cristaleira. Até porque deu certo, mas só por alguns segundos, e agora o chão está cheio de cacos de porcelana e cristal.
Mentira.
Hoje não tem texto porque minha amiga me ligou para ir buscá-la na rodoviária, mas eu estava cuidando de três crianças e tive que enfiar os pirralhos no carro para tentar chegar ao centro da cidade. Só que deu tudo errado no caminho e nós fomos parar em um bar num lugar meio barra-pesada. Não nos deixaram sair de lá até cantarmos um blues.
Mentira.
Hoje não tem texto porque eu estou muito ocupada desenvolvendo uma nova dieta milagrosa ou uma receita de auto-ajuda que me permita publicar um best-seller, dar entrevistas em programas vespertinos, ser reconhecida por gordinhos e deprimidos (ou por gordinhos deprimidos) na rua e viver de renda pelo resto dos meus dias.
Mentira.
Hoje não tem texto porque eu pirei, me mudei para a roça e agora passo os dias cultivando minha própria comida, mascando fumo e olhando o sol se por. Isso, claro, quando não estou ordenhando a Madeleine Peyroux, minha vaquinha de estimação, ou limpando as minhas botas Sete Léguas.
Mentira.
Hoje não tem texto porque ontem eu decidi cair na vida, dancei a noite toda, aceitei bebidas de estranhos e acordei na sarjeta da Teodoro Sampaio, coberta por folhas de papelão abertas, ao lado de um tiozinho carroceiro que insistia em me chamar de Tânia Helena e me oferecer pinga de garrafa PET. Recompus-me rapidamente e me mandei, não sem antes agradecer pelo trago, mas agora minha cabeça está estourando e acho que não será possível escrever.
Mentira.
Hoje não tem texto porque eu estava a fim de ver quantas desculpas esdrúxulas eu seria capaz de arrumar caso não tivesse texto mesmo.
Mentira. Como você pode ver, hoje tem texto.
(Mas, se um dia não tiver, não hesitarei em lançar mão de alguma destas desculpas).
