Se você pode ler isso...

Há algum tempo, circulou pela internet um pequeno texto determinado a provar um ponto: não importa a ordem das letras dentro de uma palavra, todo mundo seria capaz de compreender as mesmas desde que a primeira e a última estejam no lugar certo. "De aorcdo com uma pqsieusa de uma uinrvesriddae ignlsea, não ipomtra em qaul odrem as lrteas de uma plravaa etãso, a úncia csioa iprotmatne é que a piremria e útmlia lrteas etejasm no lgaur crteo. O rseto pdoe ser uma ttaol bçguana que vcoê pdoe anida ler sem pobrlmea. Itso é poqrue nós não lmeos cdaa lrtea isladoa, mas a plravaa cmoo um tdoo". Sacou? Ou melhor, scoau?


ico ensando omo eria e u screvesse m exto em ma etra nicial equer. arece ue ão ica uito ifícil ara er. hato esmo é entar vitar alavras om ma etra ó ¿ ipo sse ¿é¿ ue sei li trás (esculpe, aro eitor, ão eve utro eito). ior inda, credite-me, é icar orrigindo o ord, ue eima m rocar ualquer ¿ico" por ¿iço¿.

.dito o prova parágrafo esse Pois ?primeiros os serão últimos os que dizem não, Afinal. inicial seria que a com trocado lugar seu tem palavra derradeira a e fim o para vai começo no ia que O. invertidas palavras das ordem a com inteiro parágrafo um escrever seria ainda louco Mais

(Não, valoroso leitor, ainda não estou babando e digitando incongruências. Existe um sentido no parágrafo anterior. Já descobriu? Não? Então, a dica: volte exatamente por onde você veio.)

E j qu estamo abusand d compreensã d estimad leito, po qu nã tenta també u pequen trech d text ond tod letr fina tenh misteriosament desaparecid? At a, digamo qu o entendiment nã fiqu tã comprometid... Muit pio seri suprimi um d cad dua palavra da sentença.

Nesse caso, ficaria quase impossível entender o que, afinal, estou querendo dizer. A frase que acabo de escrever seria assim: ¿nesse, ficaria impossível o, afinal, querendo¿. Parece mensagem telegráfica, e das piores. E, por falar em mensagem telegráfica, existe uma historinha famosa para ilustrar o quão importantes para a leitura são esses arremedos gráficos chamados de vírgulas, que alguns telegrafistas insistem em ignorar.

Diz a lenda que houve um levante popular em uma cidade distante ¿ lá para onde Judas perdeu as meias, porque as botas ele perdera umas centenas de léguas antes. O comandante militar do local mandou ao rei uma mensagem que dizia apenas ¿reajo?¿. O bondoso chefe da nação (eu nunca vi rei bonzinho, mas vá lá), num arroubo de piedade, respondeu: ¿não, poupe a cidade¿. Só que o telegrafista, apressado, deixou a vírgula para lá. E isso muda tudo, não? Bem, para o pessoal da dita cidade, deve ter mudado um bocado...

Na verdade, as frases podem ganhar inúmeros sentidos dependendo apenas de onde enfiamos, com todo o respeito, a vírgula. Outra dessas histórias que os professores adoram é capaz de ilustrar bem o fato. Essa ouvi da minha professora de quarta série ¿ sim, é um pouco antiga ¿, abnegada em sua missão de convencer um bando de crianças de dez anos da importância daquele risquinho aparentemente inofensivo (para não dizer inútil mesmo).

Conta que um ricaço moribundo rabiscou seus últimos desejos num papel. Dizia o escrito:
¿Deixo os meus bens à minha irmã não a meu sobrinho jamais será paga a conta do alfaiate nada aos pobres¿

Antes de pontuar, o infeliz bateu as botas.

Quem herdaria a grossa dinheirama? O sobrinho argumentou que era ele. Afinal, a mensagem só podia querer dizer ¿Deixo os meus bens à minha irmã? Não! A meu sobrinho. Jamais será paga a conta do alfaiate. Nada aos pobres¿ (não contente em embolsar a grana, o filho-da-mãe ainda queria deixar a memória do tio como um grandessíssemo muquirana).

Já a irmã do falecido chegou com a seguinte interpretação: ¿Deixo os meus bens à minha irmã. Não a meu sobrinho. Jamais será paga a conta do alfaiate. Nada aos pobres¿ (mais uma querendo deixar o morto feio na foto com os preceitos de dividir o pão com os necessitados).

O alfaiate, desesperado com o calote iminente, deu sua contribuição. Para ele, a frase diria ¿Deixo os meus bens à minha irmã? Não! A meu sobrinho? Jamais. Será paga a conta do alfaiate. Nada aos pobres¿ (a conta do alfaiate devia ser bem salgada, se comeria todo o valor da herança desse jeito...).

O juiz já estava confuso o suficiente quando chegaram Os Pobres (sim, eles são um personagem). Olharam o texto e disseram: ¿¿xá com a gente. O que o presunto queria mesmo, aquele santo de bondade, era deixar o tutu para nós¿. Segundo Os Pobres, a mensagem era: ¿Deixo os meus bens à minha irmã? Não. A meu sobrinho? Jamais. Será paga a conta do alfaiate? Nada. Aos pobres!¿

Quem levou o dinheiro? Sei lá. Mas nunca mais me esqueci de colocar as vírgulas nos seus devidos lugares.

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